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Como são formadas as equipes de saúde indígena?

Redação Recifes
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Como são formadas as equipes de saúde indígena?
Foto: shamanneri neri / Pexels

Para certas etnias indígenas, se uma pessoa foi picada por uma cobra, ela deve permanecer no mesmo local, afastada de todos os outros moradores. Segundo as crenças daquele grupo, a única maneira de tratar é fazendo rituais que duram vários dias.

Na visão ocidental da medicina, permitir que isso aconteça enquanto a ciência possui medicamentos que neutralizam o veneno em minutos pode parecer um descaso. Mas, para os médicos de saúde indígena, esse é um choque cultural que precisa ser enfrentado.

“Aplicar o soro antiofídico no momento inadequado para aquela cultura é violentá-los espiritualmente e, para eles, essa violência pode ser tão danosa quanto perder um membro do corpo”, explica Carla Rodrigues, médica de família e comunidade da saúde indigena.

Lidar com o encontro entre esses dois mundos — os saberes tradicionais e a medicina baseada em evidências —  não é uma tarefa fácil. Por isso, o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena (SasiSUS) conta com uma equipe multidisciplinar de atendimento, incluindo moradores locais das próprias comunidades

Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena (EMSI)

A Equipe Multidisciplinar de Saúde Indígena (EMSI) é a linha de frente do atendimento básico à saúde nas aldeias. A sua composição varia conforme a necessidade e vulnerabilidade de cada território:

  • Agentes Indígenas de Saúde (AIS): moradores escolhidos pela própria comunidade. Identificam os casos e podem realizar o primeiro atendimento ou acionar a EMSI. São fundamentais para a tradução linguística e cultural;
  • Agentes Indígenas de Saneamento (Aisan): também residentes escolhidos pela comunidade. Realizam atividades de prevenção de doenças e promoção da saúde através do saneamento básico e ambiental;
  • Enfermeiros: são fixos e exclusivos da equipe, responsáveis pelo atendimento, coordenação dos fluxos de cuidado e acompanhamento de programas de saúde;
  • Técnicos de enfermagem: também fixos e exclusivos da equipe, dão suporte aos enfermeiros nos procedimentos necessários;
  • Médicos: podem estar vinculados a mais de uma equipe e realizam consultas, diagnósticos e tratamentos;
  • Cirurgiões-dentistas e técnicos em saúde bucal: também podem estar vinculados a mais de uma equipe e fazem os atendimentos e procedimentos odontológicos nas comunidades;
  • Agentes de Combate a Endemias (ACE): atuam no controle de vetores e prevenção de endemias específicas no território;
  • Pilotos e barqueiros: indispensáveis para garantir a mobilidade das equipes e dos pacientes pelos rios e lugares de acesso remoto.

Há ainda o Núcleo Ampliado de Saúde Indígena (Nasai), que funciona de forma semelhante ao e-Multi da atenção primária. São equipes multiprofissionais complementares que dão suporte às EMSI, de forma itinerante e intersetorial. Antropólogos, assistentes sociais, educadores físicos, farmacêuticos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, ginecologistas, obstetras, homeopatas, pediatras, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, arte-educadores e sanitaristas podem fazer parte do Nasai.

Os curadores tradicionais, como os pajés e parteiras, também participam do cuidado. Atualmente, no entanto, eles não são formalmente integrados às equipes de saúde, dificultando o reconhecimento efetivo dos saberes tradicionais nesses territórios.

A importância dos profissionais indígenas na equipe

“Os Agentes Indígenas de Saúde (AIS), os Agentes Indígenas de Saneamento (Aisan) e os demais profissionais indígenas são verdadeiramente fundamentais para a efetividade, o sucesso e a humanização do SasiSUS. Eles ajudam a comunidade a compreender os tratamentos da medicina ocidental e, ao mesmo tempo, ajudam a equipe de saúde a respeitar e integrar os saberes tradicionais, evitando conflitos de conduta”, destaca Rodrigues.

A presença desses profissionais dá acolhimento e segurança para os pacientes, além de permitir a continuidade do cuidado, já que eles estão presentes todos os dias nas aldeias.

Eles facilitam ainda o trabalho dos médicos que, por sua vez, enfrentam diversos obstáculos no atendimento em territórios tradicionais. Podem, por exemplo, se sentir inseguros por estarem em um ambiente imprevisível, longe do conforto dos grandes centros e de suas famílias. O plano de carreira para quem trabalha na área ainda não é bem estruturado e a remuneração costuma ser inferior à da cidade, o que conflita com as longas escalas de trabalho, a pouca infraestrutura e a incerteza quanto aos dias de entrada e saída do território.

Conciliar tudo isso é um desafio que, para a médica, exige vigilância constante, escuta ativa e coragem para equilibrar a ciência com a alteridade.

“Para oferecer um cuidado culturalmente adequado, o primeiro passo é tentar compreender genuinamente o modo de vida do outro: perguntar o que o paciente acha a respeito do tratamento, nunca impor a visão biomédica de cima para baixo e garantir a autonomia dele para aceitar ou recusar o que é proposto. Eu já vi febre não passar com o mais poderoso antitérmico, mas ceder após um ritual indígena. A nossa ciência do ‘mundo moderno’ tende a negar aquilo que não consegue explicar, mas para essas comunidades a eficácia é comprovada milenarmente pelo uso tradicional”, afirma Rodrigues.

Veja também: Como os Agentes de Saúde trabalham no combate às arboviroses?

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Artigo originalmente publicado em drauziovarella.uol.com.br
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